A oferta de serviços financeiros e o impacto no modelo de negócio do varejo

As grandes redes do varejo já perceberam que oferecer serviços financeiros não é apenas bom para suas margens e para melhorar seus resultados financeiros, mas uma estratégia fundamental para elas estarem cada vez mais presente no dia-a-dia dos consumidores. Seja um marketplace de uma grande varejista, uma importante rede de postos de combustíveis com ampla penetração no país, ou mesmo um distribuidor com centenas ou milhares de pequenas lojas de varejo como clientes. O fato é que o varejo possui o contato direto com o cliente final, tem o controle da distribuição e está diante de uma oportunidade incrível de oferecer serviços financeiros para estes consumidores.

O Brasil possui cerca de 60 milhões de desbancarizados e apesar de estes não terem acesso a uma conta em banco, ou mesmo a um cartão de crédito, eles têm fácil acesso à rede do lojista. Interagir com este cliente apresenta uma oportunidade única de oferecer um produto ou serviço mais adequado e no momento exato da interação com o consumidor. Quer momento mais oportuno para conceder um empréstimo do que o período em que o cliente está na loja pesquisando e comprando uma TV ou geladeira? Mas para ter sucesso nessa jornada é fundamental conhecer o cliente.

Ofertas de empréstimos pessoais via aplicativo ou cartão private label da loja, conveniência para pagar contas e boletos através do digital, transferência de dinheiro entre contas, proposta de previdência privada, entre outros. A oferta de serviços financeiros deve fazer com que as empresas do varejo estejam ainda mais presentes na vida de seus consumidores. E há algumas alternativas para o varejista oferecer estes serviços.

A primeira delas é ele parceirizar com bancos e instituições financeiras. O Brasil tem cerca de 160 bancos e a maioria deles tem pouca penetração no mercado. Eles não têm acesso à distribuição e muitas vezes são desconhecidos. Temos aí uma oportunidade interessante para estas instituições financeiras firmarem parcerias com as redes de varejo, alcançando novos públicos, seja através do aplicativo da varejista ou através de app do banco digital. Tanto bancos tradicionais como digitais estão diante de uma conjuntura favorável para tornarem-se parceiros das varejistas, de modo a oferecerem novos produtos e serviços e aproveitarem os canais de distribuição do varejo.

Outra alternativa é a varejista montar sua própria fintech, novamente em parceria com o Banco ou como uma fintech independente. Neste último caso a fintech vai precisar de autorização do banco central para funcionar e se tornar uma SCD (sociedade de crédito direto), segundo a nova resolução do Banco Central do Brasil Nº 4.656, de 26 de abril de 2018. Uma vez que obtenha a aprovação do BC a fintech pode oferecer empréstimo com capital próprio ou através de investidores, sem a necessidade de um banco associado (banco liquidante).

As grandes redes de varejo, distribuidores e atacadistas estão começando a se posicionar e fechar parcerias para a oferta de serviços financeiros. Em novembro de 2018, a Guararapes, holding que controla as Lojas Riachuelo, informou que pretende transformar o seu braço financeiro, a Midway, num banco. A Midway gerencia cartões da Riachuelo e, à época, tinha 30,5 milhões de unidades emitidas no país, 7,4 milhões de clientes ativos e faturou R$ 554 milhões no terceiro trimestre do ano passado. Os números da empresa mostram que o Midway já deve nascer maior que bancos digitais, como o Inter, Nubank e Agibank.

Outro exemplo interessante, já no segmento de distribuição de combustíveis, é a parceria do Mercado Pago, instituição de pagamento do grupo Mercado Livre, com a Raízen, licenciada da marca Shell no Brasil. Agora, os postos de combustíveis da rede com a marca Shell irão contar com um novo serviço de pagamento via aplicativo, que permitirá ao consumidor abastecer seu veículo e pagar através de cartão de crédito ou usando o saldo do Mercado pago.

E este movimento não é exclusivo do mercado brasileiro, estamos falando de uma tendência mundial. Grandes empresas globais como a Amazon e Walmart já avançam com a oferta de serviços financeiros. A Amazon por exemplo, oferece serviços como o Amazon Pay, a sua carteira digital de pagamentos, o Amazon Cash que permite que o cliente faça depósito em dinheiro na sua conta digital e Amazon Lending que oferece empréstimos diretamente para os vendedores de seu marketplace.

Na Europa, o avanço do modelo Open Banking também tem despertado o interesse das varejistas quanto aos benefícios e oportunidades que o modelo oferece ao estimular a oferta de serviços financeiros. Ele representa uma oportunidade única para elas oferecerem uma melhor experiência para seus clientes, e a oferta de novos serviços tais como: pagamentos mais flexíveis, reembolsos mais rápidos, otimização de fluxo de caixa e redução de taxas com cartões de crédito e intermediários.

A oferta de serviços financeiros deve fazer com que as empresas de varejo estejam ainda mais presentes na vida de seus consumidores. As margens destes serviços são sensivelmente maiores do que as do varejo tradicional, o que deve fazer com que as varejistas invistam fortemente em serviços financeiros para melhorar seus resultados. Este processo deve aumentar a competição no setor, e para se destacarem neste novo cenário as varejistas terão que conhecer, como nunca, seus clientes e oferecerem produtos e serviços extremamente personalizados.

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